Desafios em distribuição e logística no Brasil são discutidos em oficina

Projeto ISCV realiza sua primeira oficina em 2015, reunindo empresas e especialistas para debater os obstáculos e as oportunidades para inovação e sustentabilidade em distribuição e logística 20/03/2015
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Por Bruno Toledo (GVces)

País de dimensões continentais, o Brasil sofre dificuldades históricas com sua infraestrutura deficiente, uma pedra duradoura no sapato de governos e empresas no decorrer dos anos. Mesmo quando comparado com nações de perfil parecido, como China e Rússia, o Brasil fica muito atrás na corrida da competitividade internacional por causa dos custos associados ao transporte, armazenamento e distribuição ineficiente de seus produtos dentro do país - tão atrás que, mesmo ampliando os investimentos atuais nesse setor em 10 vezes nos próximos anos, ainda assim não conseguiremos competir no mercado global.

“Mesmo que a gente faça investimentos vultosos, o Brasil continuará na lanterna em logística e distribuição, caso a gente continue num modelo de inovação incremental”, alerta Paulo Branco, vice-coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces). “Ou seja, se continuarmos na mesma lógica, não conseguiremos sair dessa armadilha. O caminho para sairmos disso pode estar nas inovações disruptivas, aquelas que revolucionam setores inteiros de uma economia”.

Por isso, se queremos avançar para um novo modelo de distribuição e logística no Brasil, que melhore a condição do país no mercado internacional e que seja ambientalmente sustentável, precisamos olhar para os atores mais propícios para desenvolver inovações disruptivas: os pequenos e médios empreendimentos. Esta é a proposta do ciclo 2015 de atividades do projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), uma iniciativa empresarial do GVces em parceria com o Citi e patrocínio da Citi Foundation.

Em oficina realizada no dia 12 de março, a equipe do GVces reuniu representantes de grandes empresas e especialistas em logística e distribuição para debater os gargalos da infraestrutura logística no Brasil e as oportunidades de inovação para sustentabilidade no setor, principalmente a partir de pequenas e médias empresas.

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O desafio da infraestrutura logística no Brasil

No contexto da globalização, a inserção econômica de um país tornou-se uma das peças-chave para o seu desenvolvimento econômico. Mais do que se inserir no jogo comercial global, as condições nas quais isso acontece são cruciais para que se tenha sucesso na conquista de mercados estrangeiros – e a infraestrutura logística é uma dessas peças.

Ter uma infraestrutura eficiente e distribuída, que permita o uso de diferentes modais e que tenha a capacidade de transportar e distribuir as matérias primas e os produtos de forma racional, é essencial para as operações de uma empresa nesse ambiente globalizado, não apenas para ganhar mercados, mas também para conseguir comprar matéria prima em qualquer lugar. Entretanto, mesmo com os grandes investimentos realizados nos últimos anos, especialmente aqueles associados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a infraestrutura brasileira para transporte e distribuição continua bastante defasada.

“A infraestrutura brasileira é aquém das nossas necessidades. O Brasil é o pior país emergente na avaliação de transporte em todos os modais, o que significa que temos um sério problema de competitividade: custos maiores por conta desses entraves, com nível de serviço mais baixo”, argumenta Leonardo Julianelli, gerente de capacitação do Instituto ILOS.

Para Leonardo, os esforços do governo são insuficientes: o Brasil investe menos de 0,5% de seu PIB em infraestrutura logística – comparativamente, a Rússia destina 7% de seu PIB para isso; a Índia, 8%; e a China, 10,6%. “A situação é tão precária que, se investíssemos 10 vezes o que investimos hoje nos próximos anos, em 2050 o Brasil estaria nas condições logísticas em que a China se encontra hoje”.

A dependência massiva do modal rodoviário para transporte de carga é um problema persistente no setor: pouco mais de 60% da produção nacional continua sendo transportada pelas estradas brasileiras. Para um produtor global de commodities como o Brasil, depender tanto do modal rodoviário acarreta em custos econômicos e ambientais cada vez maiores.

“A concentração do transporte no modal rodoviário no Brasil implica numa alta emissão de CO2, alimentada pelo consumo de combustíveis fósseis, e numa menor eficiência do transporte, já que a capacidade de carga é comparativamente menor que a de outros tipos de modais, como o ferroviário”, explica Priscila Laczynski de Souza Miguel, professora e pesquisadora do Centro de Excelência em Logística e Supply Chain da FGV-EAESP (GVcelog). De acordo com Priscila, aliada às questões tributárias, que favorecem uma lógica de transporte não eficiente do ponto de vista do impacto ambiental, a dependência brasileira sobre o modal rodoviário nos coloca inúmeros desafios: as longas distâncias, as cargas não otimizadas (transporte de ar), manutenção das rodovias, possibilidade de vazamentos em função das condições da estrada e cansaço do motorista, impactos sociais resultantes (particularmente exploração sexual e prostituição nas estradas), entre outros.

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Junto com essa dependência do modal rodoviário, o Brasil também enfrenta deficiências na distribuição de sua produção para o mercado global. “Mais de 50% do movimento portuário brasileiro é realizado em apenas três portos, todos localizados no Sul e Sudeste”, explica Manoel de Andrade e Silva Reis, professor da FGV-EAESP e coordenador do GVcelog. “Apenas o porto de Santos concentra mais de 1/4 do movimento portuário brasileiro, uma proporção que não é vista em nenhum outro porto do mundo”.

Uma aposta do governo federal nos últimos anos tem sido na expansão de outros modais de transporte, como uma forma de ampliar a rede logística nacional e de reduzir custos associados atualmente ao uso do modal rodoviário. “A implementação de hidrovias na bacia do Madeira-Amazonas, por exemplo, permitiu uma redução de quase 50% no custo do transporte da soja produzida no Centro-Oeste”, argumenta Manoel. “A intermodalide é importante, pois permite que os produtores e os distribuidores tenham benefício de tempo e custo”.

Caminhos da inovação para sustentabilidade em logística e distribuição

Mais da metade (51%) do setor de logística e distribuição no Brasil é composta por pequenas e médias empresas. Na economia em geral, elas são a maioria esmagadora do universo empresarial brasileiro, e são também as que possuem potencial para desenvolver inovações disruptivas voltadas para sustentabilidade.

“Grandes empresas, mobilizadas em seu negócio principal, têm dificuldades para desmobilizar ativos e seguir para outros caminhos”, explica Hudson Lima de Mendonça, gerente do Departamento de Engenharia e Serviços da FINEP, estatal vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) voltada para o fomento à inovação e à pesquisa tecnológica no Brasil. “Para as pequenas empresas, o custo de desmobilizar seus ativos é menor, por isso elas têm o dinamismo necessário para mudar seu negócio”.

Ou seja, se quisermos encontrar soluções com potencial de inovação para sustentabilidade em distribuição e logística, precisamos olhar para as pequenas e médias empresas presentes nessas cadeias de valor e apoia-las nesse esforço – porque os desafios nesses setores não são pequenos.

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“A maior parte das transportadoras no Brasil é formada por pequenas empresas, que não possuem um grau elevado de profissionalização”, explica Priscila Laczynski, do GVcelog. “Geralmente são caminhoneiros que conseguem juntar recursos e comprar outras carretas, criando pequenas transportadoras, mas sem modelos elaborados de gestão e profissionalização”. A deficiência de gestão é um obstáculo premente na análise sobre o setor de transporte no Brasil.

“Precisamos quebrar paradigmas com pequenas e médias empresas no que tange à distribuição de mercadorias”, alerta Leise Kelli de Oliveira, professora e pesquisadora da UFMG. “Mesmo representando quase a metade do setor de distribuição no Brasil, boa parte das pequenas e médias empresas no setor não opera de uma forma racional”.

Melhorar a gestão é um passo fundamental para que essas empresas possam empreender, com projetos que integrem inovações e sustentabilidade em distribuição e logística, e muitas organizações já estão desenvolvendo soluções no mercado. “Já temos empresas que aproveitam o uso de softwares para roteirizar suas cargas, otimizando as operações, que olham para seus veículos para reduzir consumo de combustível, que olham para o design das embalagens para otimizar o carregamento no caminhão”, destaca Priscila.

O contexto nas grandes empresas e os próximos passos da iniciativa

Na segunda parte da oficina, os representantes das empresas membro de ISCV reuniram-se para avaliar as questões apresentadas pelos especialistas e seus reflexos para os negócios na perspectiva das empresas.

O contexto das operações de distribuição e logística das empresas foi analisado por seus representantes a partir do levantamento de práticas existentes e dos principais desafios e oportunidades identificadas em relação aos tópicos abordados na fala dos especialistas convidados para a oficina.

A sistematização deste exercício resultou em um grande painel com temas e desafios que poderão ser endereçados pela iniciativa ao longo do ano como a necessidade de otimização e ganho de eficiência em processos, a pressão para redução da emissão de GEE, os desafios impostos por leis e regulamentos diferentes em cada município do território brasileiro, as questões ligadas à terceirização e à gestão de terceiros, as dificuldades e incoerências resultantes das ações realizadas pelas empresas para lidar com a complexa realidade tributária do país e as oportunidades relacionadas ao compartilhamento de estruturas e processos entre diferentes empresas.

Esses temas terão espaço nas próximas oficinas da iniciativa, que já contarão com a participação de representantes de iniciativas inovadoras protagonizadas por pequenos e médios empreendimentos na cadeia de valor de grandes empresas, que serão selecionados por meio de uma chamada de casos que será lançada nas próximas semanas.

Iniciativas inovadoras em distribuição e logística serão identificadas por meio de chamada de casos

Com lançamento previsto para Abril, a chamada de casos do ciclo de 2015 de ISCV buscará casos de inovação para sustentabilidade protagonizados por PMEs atuando em processos de distribuição e logística na cadeia de grandes empresas.

O edital de chamamento definirá os critérios para inscrição e seleção das iniciativas e será amplamente divulgado com o objetivo de possibilitar a indicação de casos realizados em todo o território nacional e em diferentes cadeias e setores da economia. As iniciativas selecionadas e reconhecidas nesta iniciativa serão convidadas a participar das próximas oficinas de ISCV, ao lado das grandes empresas-membro, contribuindo com a construção de referências que apoiem a inovação para sustentabilidade no setor.