Revista Página22 :: ed. 50 (março/2011)

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EDITORIAL - Felizes para sempre?

Felicidade e sustentabilidade: tudo a ver? De bate-pronto, a resposta seria sim. Uma vida mais simples e frugal, que não se deixa seduzir pelo consumismo, pode ser um caminho para felicidade e, ao mesmo tempo, amenizar a pressão sobre os recursos naturais. Cultivar os relacionamentos verdadeiros e agir em prol da coletividade trazem não somente imensa satisfação pessoal, como ajuda o mundo a se reequilibrar. Por essas e outras, a felicidade ganha espaço ao se contrapor ao ideário de crescimento econômico contínuo, que teve suas bases no Iluminismo.

Mas, indo mais fundo, a resposta se complica. Dá para ser feliz considerando que os recusos da Terra podem não dar conta de incluir 4 bilhões de pessoas que ainda vivem sob condições indignas? Que o aumento do consumo será necessário para pelo menos 2/3 da população mundial, até que esta escolha trocar a “simplicidade involuntária” pela simplicidade voluntária? Que, para essa equação fechar, impõe-se uma revisão urgente de valores, ou então uma mudança pela dor? Que a desigualdade entre ricos e pobres, grande fator de infelicidade, continua crescendo?

Ao investigar essas questões, Página22 deparou-se com uma pergunta anterior: deve ser a felicidade o novo critério a nortear o desenvolvimento? Ou ela pode escamotear situações em que indivíduos estão privados de suas liberdades e até necessidades básicas, mas acabam encontrando uma forma de sobreviver e ainda tirar proveito da vida? A liberdade, a honra, a democracia seriam valores menos subjetivos e mais eficazes como parâmetros de desenvolvimento? Que depoimentos dariam as pessoas que estão se insurgindo contra as ditaduras no Oriente Médio?

Embora iniciativas como a da Felicidade Interna Bruta (FIB) sejam muito válidas, as transformações que o mundo pede talvez tenham mais a ver com resiliência, consciência de limites e capacidade de lidar com condições adversas do que propriamente com felicidade. É um ponto a se debater.

Boa leitura!

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